Júlia Louzada

Júlia Louzada, é psicologa, psicanalista e pesquisadora vinculada ao Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL) e ao Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica da USP. Com dissertação em processo de escrita referente a Fome no Brasil e Sofrimento Sociopolítico. Compõe também a RedIPPol – Rede Interamericana de Pesquisadores em Psicanálise e Política. É feminista e anti-imperialista. Escreve textos acadêmicos, é colunista do jornal Brasil de Fato, também escreve em guardanapo de papel em bares e cafés, em geral sobre Psicanálise e Política. Lê e escreve para sobreviver. Aqui reune publicações, memórias e outras palavras

O Agente Secreto e a Fantasia Brasileira

Texto originalmente publicado minha coluna do Jornal Brasil de Fato.

Data: 22 de janeiro de 2026.

Durante muito tempo, o Brasil ocupou o lugar do estrangeiro no próprio cinema. No circuito internacional, mas também na forma como aprendemos a nos olhar. Narrados de fora, enquadrados como exceção, exotismo ou atraso. Quando um filme brasileiro atravessa essas fronteiras sem precisar se traduzir, algo se desloca. 

Há filmes que não se limitam a contar uma história. Eles produzem reconhecimento. O Agente Secretointegra essa linhagem rara do cinema brasileiro que toca algo profundo da experiência coletiva, que enlaça política, memória e desejo. O apaixonamento que o filme desperta não é circunstancial. Ele sinaliza um processo de identificação, no sentido mais rigoroso do termo, com efeitos diretos sobre a forma como um povo se vê e se reconhece. E isso reverbera na identidade nacional e na democracia.

Freud nos ensinou que a identificação é um dos operadores centrais da constituição do laço social. Identificamo-nos para existir com outros, para partilhar uma narrativa, para sustentar uma ideia de pertencimento. Quando um povo não se vê, quando suas imagens são sistematicamente negadas ou empobrecidas, algo do vínculo simbólico se rompe. O cinema participa ativamente dessa economia psíquica. Ele organiza fantasias coletivas, produz memória, oferece imagens nas quais é possível se reconhecer.

Tania Rivera, psicanalista e cineasta, insiste que a fantasia não deve ser confundida com escapismo. A fantasia é uma via de acesso à verdade, tanto do sujeito quanto do social. Ela permite que aquilo que não pode ser dito diretamente encontre forma. O cinema opera exatamente nesse ponto: não mascara a realidade, mas a desloca, a intensifica, a torna visível por outras vias.

Talvez por isso não seja coincidência que os momentos de maior reconhecimento internacional do cinema brasileiro tenham ocorrido em períodos de fortalecimento democrático e investimento público consistente em cultura. Em 2004, quatro indicações para Cidade de Deus, em 2006, duas indicações para Diários de Motocicleta, nos primeiros governos Lula, o Brasil voltou a figurar entre os indicados ao Oscar. O mesmo acontece em 2025 com três indicações, para Ainda Estou Aqui, e agora em 2026, quatro indicações para O Agente Secreto. A arte responde quando há incentivo e políticas públicas de fomento. A cultura precisa de condições materiais para existir, mas seus efeitos ultrapassam em muito a dimensão econômica.

Imaginário social

Produzir cinema significa gerar trabalho, renda, cadeias produtivas. Mas significa também sustentar o imaginário social. A democracia não se faz apenas por meio de instituições formais. Ela se constrói na possibilidade de um povo se narrar, se desejar e se reconhecer. O cinema nacional, quando desperta identificação e afeto, fortalece a soberania simbólica do país.

O Agente Secreto reivindica herança do Cinema Novo, sua ética e estética. Glauber Rocha dizia que “o cinema novo é a síntese criadora do cinema brasileiro popular internacional”. Popular porque nasce do povo e de suas contradições. Internacional porque inventa linguagem própria, sem subordinação. A estética da fome nunca foi apenas sobre carência material. Era também fome de justiça, fome de linguagem, fome de democracia. Essa fome persiste.

O Brasil é um país que se revela mesmo quando tenta ser silenciado. A ´perna cabeluda´, figura mítica do imaginário pernambucano, é a síntese disso. Um corpo fragmentado, quase monstruoso, circulando como lenda urbana. Assim como a ´La Ursa´, integra o realismo mágico brasileiro, em que o fantástico não encobre a realidade, mas a denúncia. A fantasia surge como verdade cifrada. A censura nunca conseguiu eliminar completamente a imagem. 

O realismo mágico, o folclore, o excesso, o estranho sempre funcionaram como estratégias de revelação.

Há algo dessa tradição em O Agente Secreto. O filme confia no espectador. Confia na potência do corpo em cena. A indicação de melhor direção de elenco explicita isso. O elenco não apenas interpreta personagens, mas encarnam histórias. Gestos, vozes, músicas, e até cigarros tornam-se matéria estética e política. 

Wagner Moura, ao falar de memória na cerimônia do Globo de Ouro, tocou num ponto sensível da experiência brasileira. Onde a memória está inscrita em um campo de disputa permanente. O que se recorda, o que se esquece, o que se escolhe falar. A Comissão da Verdade nos ensinou que memória, verdade e justiça caminham juntas, e que sem elas não há elaboração possível. 

O cinema participa diretamente dessa disputa, com coragem,  aquela já dita por Glauber Rocha “a arte não é só talento, mas sobretudo coragem”.

Escrevo enquanto O Agente Secreto se infiltra em minhas fantasias carnavalescas – literalmente. Aqui reside a cisão: fantasia e máscara são coisas muito diferentes. A máscara vela, encobre o abismo com ilusão superficial, é fuga para o não dito. Ao contrário da fantasia, como lembra Tania Rivera, a fantasia não nos afasta do real, ela nos permite habitá-lo. Na psicanálise, a fantasia organiza o desejo e sustenta o laço. No carnaval, ela exagera o que somos para que possamos nos reconhecer sem pudor.  

Que venha o cinema brasileiro ocupando a cena, produzindo identificação e inventando laço, nas salas de cinema onde já somos mais de um milhão e meio de espectadores, na cerimônia do Oscar em março, nas ruas em festa no carnaval e também no campo da política.

Júlia Louzada é psicanalista e pesquisadora vinculada ao Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política da USP.

Leia outros artigos de Júlia Louzada em sua coluna no Brasil de Fato MG.