Júlia Louzada

Júlia Louzada, é psicologa, psicanalista e pesquisadora vinculada ao Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL) e ao Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica da USP. Com dissertação em processo de escrita referente a Fome no Brasil e Sofrimento Sociopolítico. Compõe também a RedIPPol – Rede Interamericana de Pesquisadores em Psicanálise e Política. É feminista e anti-imperialista. Escreve textos acadêmicos, é colunista do jornal Brasil de Fato, também escreve em guardanapo de papel em bares e cafés, em geral sobre Psicanálise e Política. Lê e escreve para sobreviver. Aqui reune publicações, memórias e outras palavras

Palavras para As que escrevem psicanálise: desejar, escrever e transmitir

Impressões sobre o Dia FLAPPSIP 2026

Texto originalmente publicado no Boletim On-line 79 do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em junho de 2026.

Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você.” (Gloria Anzaldúa, “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”, 2000, p. 232).

Entre os dias 22 e 23 de maio de 2026, o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e o Grupo de Apoio da FLAPPSIP realizaram o Dia FLAPPSIP. Foram dezoito mesas dedicadas a expor e discutir os trabalhos apresentados pelo Departamento em Lima, no Peru, durante o XIII Congresso da FLAPPSIP, realizado em outubro de 2025.

Silvia Alonso abriu generosamente os trabalhos com fragmentos de textos escritos por colegas após o congresso de Lima. Escutávamos nossas próprias palavras retornarem pela voz de outra mulher. Antes disso, porém, ela nos provocou. Ou talvez nos entregou uma tarefa para os próximos anos. Convidou-nos a “habitar a nós mesmos, habitar o mundo que vivemos e o Outro como necessidade”.

Passei os dois dias entre auditórios, corredores, cafés e salas paralelas. A programação nos convocava simultaneamente ao encontro e à renúncia. Escolher uma mesa era perder outra. Decidi priorizar aquilo que não havia conseguido escutar em Lima. Havia alegria nessa decisão. E havia também uma pequena falta, inevitável companheira de todo desejo, produzida pelas mesas onde eu não estaria.

Voltei para casa com anotações reunidas dessa vez em apenas um caderno[2]. Releio agora essas palavras e percebo que esta crônica poderia falar de muitos assuntos. Poderia falar da clínica, da formação, da política, dos debates que atravessaram as mesas ou das novas configurações da transmissão.

Assim como para as mesas de apresentações dos trabalhos foi necessário fazer uma escolha, escolhi pela escrita que aparecia repetidamente, mesmo quando não era pronunciada. Dos textos apresentados, mas também escrita como desejo, trabalho, elaboração e transmissão. Talvez porque muitos dos trabalhos apresentados, em suas linhas ou entrelinhas, parecessem responder à mesma pergunta que vem sendo formulada há décadas por outras mulheres: por que escrevemos?

Lima retorna enquanto escrevo. A experiência naquele congresso nos ensinou que um povo escreve de muitas maneiras. Nem sempre com tinta, ou com livros. Às vezes escreve em barro, com tecido, com grafite. Às vezes com fortalezas, que sobreviveram à destruição, suas ruínas parecem bibliotecas.

Essa imagem me remeteu a uma indicação de leitura, que escutei durante o encontro, Ruínas bem-comportadas. No livro, Hélène Cixous realiza aquilo que poderíamos chamar de uma escavação ficcional. Retorna à cidade natal de sua mãe, atravessando memórias, silêncios, vestígios e ausências. Sem o objetivo de restaurar o passado, ou recompô-lo como quem remonta um objeto quebrado. Mas para produzir encontros entre tempos distintos. Escavar, para não esquecer. Me parece com o que fazemos quando escrevemos.

Freud relata em “Lembrar, repetir e perlaborar” (1914/2022) que, ao longo de sua experiência clínica, percebeu que nem tudo aquilo que constitui a história de um sujeito pode ser simplesmente recuperado pela lembrança. Há experiências que retornam de outras formas. Reaparecem nos atos, nos sintomas, nas repetições, nos impasses da transferência.

A clínica o conduziu ao reconhecimento dos limites da rememoração como simples recuperação do passado. O sofrimento não desaparecia apenas porque era narrado. Certas experiências pareciam manter uma consistência própria, insistindo em retornar por caminhos inesperados. O trabalho analítico passou então a envolver a construção paciente de novas formas de relação com aquilo que resiste à simbolização. Como escreve Freud, trata-se de “fazer as pazes com o recalcado que surge nos sintomas” (Freud, 1914/2022, p. 157).

Escrever talvez participe desse mesmo movimento, uma vez que não restaura o perdido, mas produz uma superfície onde algo pode finalmente encontrar forma. Jeanne Marie Gagnebin aproxima-se dessa questão por outra trilha. Em Lembrar Escrever Esquecer, escreve:

“[d]e um lado, na esteira de Walter Benjamin, não esquecer dos mortos, dos vencidos, não calar, mais uma vez, suas vozes […]. De outro, agora seguindo as pegadas de Nietzsche, não cair na ilusão narcísica de que a atividade intelectual e acadêmica possa encontrar sua justificação definitiva nesse trabalho de acumulação – pois o apelo do presente, da vida no presente, também exige que o pensamento saiba esquecer” (pp. 11-12).

Gagnebin (2006) fala também do ato de escrever como “aguentar a angústia” (p. 1), recusando tanto a domesticação do sofrimento em categorias explicativas fechadas quanto os ideais de domínio do pensamento sobre o real. A autora propõe ainda “resistir à tentação, própria ao intelectual, de oferecer saídas totalizantes, soluções ou verdades estabilizadoras” (p. 1), uma vez que essa estabilidade pode dissolver a própria angústia de quem escreve.

Em diferentes mesas, a escrita aparecia como personagem principal ou como presença discreta, às vezes sentada à mesa; noutras, permanecia escondida nas entrelinhas. Escrever não significa preservar tudo nem abandonar tudo, mas uma forma de elaborar e transmitir.

Como nos ateliês, onde o fragmento clínico que narrava a trajetória de Angelo e seu encontro com a universidade – essa casa tantas vezes habitada por palavras rebuscadas e códigos nem sempre compartilhados – fazia emergir o título contundente: “isso não é lugar para gente como nós”. A força daquela formulação estava justamente em revelar o trabalho necessário para transformar espaços de saber em espaços de pertencimento e a sua implicação nisso tudo. Munir-se de palavras não como acúmulo de vocabulário erudito, mas como produção de condições para que a palavra pudesse circular e para que a universidade se tornasse, efetivamente, casa de todos nós. Algo semelhante aparecia nos trabalhos da Casa Diversa. As palavras não surgiam apenas como instrumento de descrição da experiência, mas como parte dos próprios dispositivos de cuidado. Da cozinha à clínica, passando por propostas como o Chapa-Quente e o Banho-Maria, elas organizavam encontros, sustentavam vínculos e criavam lugares possíveis para a escuta. Como se cada dispositivo nos lembrasse que cuidar é também construir palavras habitáveis.

Foi nesse contexto que, no dia seguinte, a mesa Psicanálise, escrita e estilos emancipatórios me capturou. Miriam Chnaiderman falou da “escrita como caminho de intensidade para afetos mil”. Em seu texto “A língua libertária dAs travestis: bajubá e Joyce”, o A carregava muito mais do que uma diferença gramatical. Carregava uma história de luta ainda em construção, uma história viva que continua sendo escrita nas ruas, nos corpos, nas políticas públicas, nos movimentos sociais e também nas clínicas que habitamos. Aprendizagem da clínica, aprendizagem das instituições de formação que encontram, nas experiências coletivas e nas lutas políticas, a oportunidade de deslocar suas próprias formas de nomear ou pronomear.

Também o trabalho “O dispositivo grupal como um ente: a experiência do grupo de trabalho Diários Clínicos”, fruto do trabalho de um grupo do Departamento, retornava repetidamente à questão da transmissão. Escutando aquelas experiências, pensei que talvez os diários sejam uma das formas de resistência ao desaparecimento, porque registram o encontro entre alguém que viveu algo e alguém que tenta compreendê-lo depois. A escrita aparece como marca da paixão pela transmissão, como esforço de fazer com que uma experiência continue trabalhando para além do instante em que ocorreu.

No trabalho Minha Gradiva: uma lembrança descobridora do erotismo como destino de prazer”apresentado por Sílvia Nogueira, a figura de Gradiva reaparecia não apenas como personagem analisada por Freud, mas como presença capaz de nos ajudar a pensar tantas mulheres que caminham entre nós, gradivas brasileiras, como ela descreveu. A mulher que avança, que faz mover, que conduz o olhar para aquilo que permanecia soterrado. A Gradiva de Freud nasce de uma escavação arqueológica, mas também de uma escavação do desejo, ela caminha sobre ruínas sem se deixar capturar por elas. Enquanto escutava a apresentação, outra figura feminina surgia ao seu lado em minha fantasia. Medusa, aquela cujo olhar petrifica. Gradiva, aquela cuja passagem convoca ao movimento. Uma transforma a vida em estátua, a outra restitui à experiência sua condição de travessia. Talvez porque ambas habitem, de modos distintos, o imaginário que cerca as mulheres e seus corpos, me vi pensando que muitas das escritas que atravessaram o encontro pareciam mover-se justamente nessa tensão entre a paralisação e o gesto, entre o silenciamento e a palavra, entre aquilo que aprisiona e aquilo que faz caminhar.

Escrevi para não esquecer: as escritas de mulheres habitam o mundo entre a Medusa e a Gradiva.

Nos trabalhos e palavras também habitavam movimentos vivos que atravessam a sociedade, a clínica, o Departamento e a própria instituição Sedes. A campanha Levante!, e a questão racial como exigência para pensar a clínica e a formação no Brasil contemporâneo. Da mesma forma, as questões da diversidade sexual e de gênero como presença transformadora, produzindo deslocamentos na escuta e na linguagem. Escutando os trabalhos, tive a impressão de que os assombros de Lima haviam atravessado o oceano e encontrado morada entre nós. Não mais como surpresa diante do novo, mas como a percepção de que algo está mudando. Mudanças que nascem dos afetos e dos encontros, da coragem de sustentar conflitos e da urgência de transformar aquilo que produz exclusão, silenciamento e morte.

Enquanto escutava essas experiências, retornava continuamente à provocação sobre a necessidade de habitar a si mesmo, habitar o mundo e habitar o Outro. Talvez escrever seja uma das formas de realizar essa tarefa. Foi assim que comecei a perceber que muitas das mulheres presentes naquele encontro escreviam cidades, clínicas, corpos, travessias, memórias, ruínas e cozinhas. Escreviam, sobretudo, para transmitir aquilo que as havia transformado.

Este texto, mais uma vez, foi convocado pela voz e pelas palavras de mulheres. E talvez por isso eu queira terminá-lo retornando a Hélène Cixous: “É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre a mulher, e faça as mulheres virem à escrita”.

Nesse encontro, Silvia Alonso escreveu e abriu a primeira mesa no auditório no segundo dia de plenária. Eram três as mulheres em transmissão: Célia Klouri com O universal em questão: descolonizando a escuta das famílias; Isildinha Baptista Nogueira com Efeito do racismo no narcisismo do sujeito negro” e Renata Cromberg com A criatividade como devir transformacional. Nas 18 mesas de trabalhos, havia 51 trabalhos, 40 deles escritos por mulheres. Me peguei, ao longo desta escrita, dialogando com a epígrafe de Gloria Anzaldúa, tomada por fragmentos que compõem a pergunta: Por que somos levadas a escrever? Acho que são muitos os ‘porquês’, assim como são muitos os ‘comos’ e ‘quandos’ escrevemos. Espero ansiosa para ouvir e ler mais sobre as hipóteses que formulamos individual e coletivamente como possibilidades de respostas, ou de novas perguntas. Que as nossas escritas sigam habitando os encontros, o blog, o boletim, as supervisões, os grupos de estudo, as pesquisas e as clínicas. Que habitem também o XIV Congresso da FLAPPSIP, em São Paulo!

Referências:

ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Tradução de Édna de Marco. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, p. 229-236, 2000.

CIXOUS, Hélène. O riso da Medusa. Tradução de Natanael da Costa e Silva. In: BRANDÃO, Izabel (org.). A questão da escrita: linguagens, corpo e subjetividade. Maceió: EDUFAL, 2004. p. 123-159.

CIXOUS, Hélène. Ruínas bem-comportadas. Tradução e posfácio de Marcelo Jacques de Moraes. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2025.

FREUD, Sigmund. Lembrar, repetir e perlaborar (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II) (1914). In: FREUD, Sigmund. Fundamentos da clínica psicanalítica. Tradução de Claudia Dornbusch. Belo Horizonte: Autêntica, 2022. p. 147-164.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar Escrever Esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.

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[1] Psicóloga e psicanalista. Ex-aluna do curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma, foi aprimoranda na Clínica do Instituto Sedes. Mestranda no programa de Psicologia Clínica da USP e pesquisadora vinculada ao PSOPOL – Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política, no eixo de pesquisa: Psicanálise, Política e Crise Climática. Compõe o Grupo de Trabalho de Práticas Psicanalíticas Situadas na RedIPPol – Rede Interamericana de Pesquisadores em Psicanálise e Política.

[2] Em referência à crônica “O assombro: uma maneira de escutar o mundo”, publicada na edição 77 deste boletim online, novembro 2025. Disponível em: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2025/11/16/eros-alteridade-e-criatividade-em-tempos-de-assombro/

Disponível em: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2026/06/12/palavras-para-as-que-escrevem-psicanalise-desejar-escrever-e-transmitir/