
Texto motivado pelo encontro do Clube do Livro:
Traço__ psicanálise e literatura
Coordenado por Júlia Louzada e Bruno Spadonni
No nosso terceiro encontro nos reunimos para ler A Vegetariana. A Vegetariana é marcada por uma dimensão onírica, e até um certo delírio, que também foi se instalando entre nós como um sonho ruim do qual ninguém quer exatamente acordar, mas também não consegue permanecer dentro sem desconforto.
Brincamos que a temática parece simples, ao ponto do livro poder ser confundido e sair da área da literatura e ir parar na de saúde e bem estar, em uma livraria mais desavisada: Uma mulher decide parar de comer carne.
Mas essa descrição em apenas uma frase é pequena demais para conter o tamanho da ruptura que inaugura. Ela não torna-se vegetariana por um manifesto político organizado, ou questões de saúde ou preocupações com os animais, ela se torna por sonhar, sonhos violentíssimos onde ela é vítima e algoz de cenas sangrentas.
O livro não oferece ao leitor a tranquilidade de uma explicação causal definitiva. Trauma, psicose, delírio, dissociação, anorexia, melancolia, resistência, colapso subjetivo, qualquer tentativa de captura parece insuficiente. Han Kang mantém a personagem numa região do estranho familiar. E isso produz um efeito raro: somos obrigados a permanecer diante do enigma sem domesticá-lo. Em tempos de excesso diagnóstico, isso não é pouco, nem fácil.
Mas ainda sim começamos a nos perguntar: o que exatamente está adoecido no livro? A mulher que deixa de comer? A família? A violência banalizada? A própria ideia de normalidade? A pergunta permaneceu circulando sem resposta.
Fazemos hipóteses que talvez tenha algo de profundamente sul-coreano no livro, como as hierarquias familiares, a disciplina social, os códigos de obediência, a violência contida nos gestos cotidianos e até os pratos que ilustram as refeições, mas também algo dolorosamente universal. O patriarcado, e a violência dirigida ao feminino, que atravessa continentes com impressionante capacidade de adaptação.
O pai que bate, o marido que descreve a esposa como quem descreve um objeto funcional, o cunhado que erotiza o corpo da mulher em colapso, todos parecem falar sobre ela e quase nunca com ela.
Yeong-hye fala pouco. E quando fala, muitas vezes fala pelos sonhos. Uma mulher cuja subjetividade só consegue emergir através do delírio onírico, das imagens corporais, da recusa alimentar. Como se a linguagem ordinária já tivesse sido inteiramente colonizada pelos outros. Como se o corpo precisasse produzir sintomas para voltar a existir.
Talvez por isso o livro produza uma sensação física tão intensa durante a leitura. O romance infiltra sensações no leitor: náusea, secura, estranhamento, desconforto, vergonha, fascínio. Han Kang escreve como quem aproxima lentamente uma câmera do corpo até que aquilo que parecia familiar se torne irreconhecível.
Falamos muito sobre como o erotismo no livro aparece contaminado pela invasão. Não há repouso possível nessas cenas. O corpo da protagonista vai sendo sucessivamente apropriado pelos olhares dos outros: o marido, o cunhado, os médicos, a família. Todos parecem querer interpretar, controlar, usar ou corrigir aquele corpo que já não obedece. E havia algo perturbador no fato de que sua recusa alimentar produzia mais escândalo do que outras formas de violência presentes no livro.
Foi então que alguém trouxe à conversa Herrmann (1998), que no texto Creme e Castigo trás a ideia da “moral alimentar”. Essa migração da moralidade, antes concentrada sobretudo na sexualidade, para o campo da alimentação e do corpo saudável. O alimento torna-se território de culpa e vigilância. Comer deixa de ser experiência simbólica, cultural e prazerosa para transformar-se em gestão moral do corpo.
Em algum momento apareceu uma pergunta que permaneceu ecoando: Yeong-hye enlouquece ou apenas deixa de sustentar a ficção coletiva da normalidade? A irmã da protagonista ganhou então uma presença muito forte na discussão. Porque enquanto uma rompe, a outra “aguenta”, uma implode e a outra administra. E talvez o livro seja cruel justamente por mostrar que ambas sofrem. Uma torna-se “patologicamente institucionalizada”; a outra torna-se perfeitamente funcional dentro da violência cotidiana. Duas formas distintas de desaparecimento.
Tornar-se árvore em Han Kang parecia escapar às categorias de vida e morte, nem suicídio, nem ranscendência. Nos pareceu que há algo ali da ordem de uma recusa radical da violência humana. Como permanecer viva sem continuar participando da destruição?
A pergunta parecia atravessar não apenas a personagem, mas o próprio discurso de Han Kang ao receber o Nobel de Literatura de 2024. Mantivemos conosco parte de suas palavras: “Pode uma pessoa tornar-se completamente inocente? Até que ponto podemos rejeitar a violência? O que acontece àqueles que se recusam a pertencer à chamada espécie humana?” E depois: “Qual o sentido de nossa breve estadia neste mundo? Quão difícil é permanecermos humanos, venha o que vier?” Nos deparamos com a tentativa de preservar alguma delicadeza dentro de um mundo organizado pela violência, e nos somamos ao desejo de Han Kang.
Do lado de fora da livraria, a cidade seguia funcionando normalmente. Saímos da livraria e fomos tomar cerveja, afinal estamos no Brasil, e também era uma sexta-feira fim de expediente para analistas trabalhadores.
No próximo encontro, seguimos traçando caminhos de leituras insubmissas. Depois de atravessar os sonhos e a carne de A Vegetariana, caminharemos agora por outras margens da violência e da invenção de si com As Malditas, de Camila Souza Villada. Em Camila, há também corpos que desafiam destinos impostos. Corpos expulsos, desejados e precarizados, que inventam formas de sobrevivência nas bordas do mundo normativo. Em Han Kang a recusa parecia caminhar em direção ao vegetal e ao silêncio, mas em Camila a existência explode em linguagem, erotismo, fúria e fabulação.
Recomendo a leitura do relato do nosso primeiro encontro, escrito pelo Bruno, publicado no Boletim do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae “Notícias sobre um Clube de Leitura: Grupo de jovens analistas se reúnem para ler “A Insubmissa” de Cristina Peri Rossi”, que está uma belezura!
https://deptodepsicanalise.blogspot.com/2026/05/noticias-sobre-um-clube-de-leitura.html
